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FIDCs despontam como eixo da alocação e podem ultrapassar marca de R$ 1 trilhão em 2026

  • Foto do escritor: a. pezzotti
    a. pezzotti
  • 22 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Segmento tende a manter fôlego em termos de crescimento de estoque e relevância, mas ambiente macroeconômico exige calibragem das expectativas


O mercado financeiro chega a 2026 em meio a uma mudança estrutural na forma de alocação de recursos. Após quase uma década marcada pelo predomínio da renda fixa tradicional e pela busca quase automática por retornos atrelados ao CDI, o crédito estruturado, com destaque para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), passa a ocupar posição central nas carteiras de investidores institucionais e de pessoas físicas. A principal dúvida, agora, é se o segmento conseguirá manter no próximo ano o fôlego exibido em 2024 e 2025, com a perspectiva dos juros em trajetória de queda.


A combinação entre maior previsibilidade da política monetária, avanços regulatórios, uso crescente de tecnologia na gestão de risco e a demanda por ativos com lastro real tem impulsionado a expansão do segmento. Segundo estudo da Ouro Preto Investimentos, com base em dados da Anbima, a participação da renda fixa tradicional nas carteiras dos fundos, que representava 48% do patrimônio líquido em 2016, deve recuar para cerca de 23% até 2030. No mesmo intervalo, os FIDCs, que respondiam por apenas 2,5% do patrimônio líquido total em 2016, praticamente dobraram sua presença e, mantida a tendência atual, devem alcançar 17,4% em cinco anos.


“Os FIDCs rapidamente se tornarão o principal instrumento de crédito”, afirma Leandro Turaça, sócio-fundador da Ouro Preto Investimentos. “Já ultrapassaram os fundos de investimentos em ações e devem passar os fundos de investimentos em participações”, complementa.


A projeção da casa é de que, até 2030, o número de FIDCs ofertados no mercado quase quadruplicará em relação ao fechamento de 2025, saltando de 3.003 para 10.768 fundos. A expectativa é que o patrimônio líquido do setor chegue a R$ 2,584 trilhões nos próximos cinco anos. Dados da Uqbar indicam que a indústria já soma R$ 820,7 bilhões em patrimônio líquido, distribuídos em 3.729 fundos operacionais, com perspectiva de ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão já em 2026.


Para Alfredo Marrucho, diretor de conteúdo da Uqbar, a tendência é de continuidade do crescimento, ainda que com algum ajuste de ritmo. “O mercado de FIDC deve continuar se expandindo em 2026, talvez em um ritmo menor em vista de incertezas políticas ou eventuais alterações macroeconômicas”, afirma. 


Segundo ele, a expansão responde a uma demanda estrutural por crédito. “O mercado brasileiro é altamente carente de crédito, e as instituições financeiras tradicionais já se mostraram incapazes de atender, de forma ampla, a demanda por crédito. Só o mercado de capitais é capaz de atender essa demanda adicional”, acrescenta. Marrucho destaca, ainda, que “essa não é só uma tendência brasileira, mas global.”

A perspectiva de queda da Selic tende a alterar a dinâmica de alocação, mas não elimina a atratividade do segmento. “Os FIDCs devem seguir atraentes pelo prêmio de crédito e de estrutura”, afirma o especialista da Uqbar. “Se o cenário-base de mercado se confirmar, a tendência é aumentar a busca por spread”, complementa. Na avaliação dele, esse movimento favorece fundos bem estruturados como complemento à renda fixa tradicional, embora venha acompanhado de maior competição e compressão de preços.


Para Richard Ionescu, CEO da IOX, boutique especializada em originação e estruturação de crédito high yield, o avanço dos FIDCs reflete a maturidade do mercado financeiro brasileiro. “Estamos entrando em uma fase de maturidade do mercado financeiro brasileiro e o crédito estruturado está no centro dessa transformação”, afirma. “Depois de uma década em que o retorno era quase automático via renda fixa, o investidor agora exige método, governança e lastro real”, complementa.


Já na avaliação de Leonardo Andreoli, da Hike Capital, o segmento tende a manter fôlego em termos de crescimento de estoque e relevância, mas o novo ambiente macroeconômico exige uma calibragem das expectativas. “O segmento tende a manter fôlego em crescimento de estoque e relevância, mas o novo ambiente pede calibragem de expectativa de retorno”, afirma. 


Ainda na visão dele, com a Selic apontando queda em 2026, o desempenho dos fundos passa a depender menos do patamar dos juros e mais da qualidade da originação. “O retorno passa a depender mais do alfa de crédito do que do beta de juros”, diz.

Andreoli observa que juros mais baixos tendem a favorecer a dinâmica de crédito, ao aliviar inadimplência marginal e estimular a originação, mas também ampliam os desafios de seleção. “A queda da Selic pode comprimir retornos nominais e aumentar a disputa por recebíveis de melhor qualidade”, afirma. Nesse contexto, segundo ele, ganham vantagem os gestores capazes de estruturar, selecionar e monitorar ativos de forma mais rigorosa, preservando o retorno ajustado ao risco.


Marrucho avalia que esse novo ambiente tende a beneficiar segmentos específicos da indústria. Crédito à pessoa física, recebíveis pulverizados de PMEs e cadeias de suprimentos, créditos originados por fintechs e crédito ao agronegócio estão entre as estruturas que podem ganhar mais tração em um ciclo de queda de juros, na avaliação do executivo.


O interesse pelos FIDCs também avança no varejo, embora ainda existam entraves à distribuição. Segundo Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, a estrutura de incentivos do mercado limita a recomendação desses produtos. “CDBs, NTN-Bs, CRIs, CRAs e COEs pagam comissões mais elevadas, o que direciona a alocação para ativos que nem sempre apresentam o melhor desempenho ajustado ao risco”, afirma.

Belitardo defende a inclusão dos FIDCs como parte relevante da estratégia de alocação. “A carteira moderada da Hike foi construída combinando liquidez, estabilidade e geração de renda. A camada de produtos líquidos garante segurança e acesso imediato ao capital, funcionando como proteção em qualquer cenário. A parcela destinada a FIDCs pulverizados entrega retornos consistentes com volatilidade muito baixa”, explica.


Na avaliação do gestor, a expansão dos FIDCs reflete uma mudança mais ampla na forma como o investidor brasileiro enxerga o crédito privado. “A combinação entre retorno e segurança tem sido decisiva para essa mudança de paradigma”, afirma.


 
 
 

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